Dora Mota
Tomar um banho no rio Douro nos areais onde a prática balnear está desaconselhada é um risco grave para a saúde. Um adulto saudável pode morrer de listeriose em poucos dias, por exemplo. E pode-se apanhar encefalite, otites, hepatite A e até poliomielite.
Nuno Silva tem 29 anos, mora em Valongo, e há muitos anos que frequenta a praia de Zebreiros, em Gondomar. Encontramo-lo lá, na tenda de campismo onde costuma pernoitar. Ao fim-de-semana, no Verão, toda a família ali vai, todos tomam banho, incluindo crianças.
Começa por dizer que não sabe porque razão a água pode fazer mal, mas depois admite que cheira mal. E acaba por apontar correctamente a causa que leva a autoridade de saúde a desaconselhar os banhos: “Julgo que o problema são os esgotos e certas empresas que deitam coisas para o rio”. Nem mais. Ninguém da sua família ficou doente, assegura.
Mas podia ter ficado. E muito, refere o responsável pela área da Saúde Ambiental do Departamento de Saúde Pública da Autoridade Regional de Saúde (ARS) do Norte, Rocha Nogueira. “O simples acto de molhar o corpo pode ser suficiente para ter uma patologia na pele. Se mergulhar, pode apanhar uma otite ou uma conjuntivite”, disse ao JN.
A Delegação de Saúde de cada concelho é quem determina se os areais podem ou não ser considerados próprias para banhos. Conta para a classificação a quantidade encontrada na água de bactérias que vivem naturalmente no intestino humano – os esterococos intestinais e a escherichia coli (ou E.coli) –, mas, fora dele, podem causar infecções graves.
Estas bactérias chegam ao rio através de esgotos não tratados, descarregados em linhas de água que vão ter ao Douro. São indicadores da presença de outros agentes infecciosos, como os vírus da poliomielite e da hepatite A, da bactéria Listeria (que provoca listeriose) e ainda de protozoários, microorganismos na origem das gastroentrites ou infecções mais graves como a encefalite.
O rio é um caldo de potenciais doenças que, numa zona tão densamente povoada como é o Grande Porto, não são facilmente associadas aos banhos no rio Douro. Todavia, a ARS-Norte soube da morte de uma jovem em Trás-os-Montes por listeriose, que pode ser, com alta probabilidade, associada ao banho num ribeiro poluído com esgotos.
“Se as descargas forem pontuais, a água tem uma capacidade de auto-depuração bastante elevada”, explica o responsável da Saúde Ambiental. Não é o caso do Douro. Há fábricas, explorações agrícolas e casas que não fazem o tratamento adequado das águas residuais. Essa continuidade impede a água de absorver e disseminar os contaminantes.
À excepção da praia da Lomba, em Gondomar, a água que banha os demais areios está poluída. “O Douro está muito contaminado”, salienta Rocha Nogueira. O que explica o oásis da Lomba é uma confluência de factores: distância de focos de poluição permanentes e correntes.
“O areínho de Avintes há 20 anos que tem uma qualidade muito deficiente do ponto de vista microbiológico”, assinala. E o concelho onde fica, Gaia, tem cobertura de saneamento a cem por cento. “Gaia fez um investimento enorme e o Porto também está a fazer um grande esforço. Mas daí para cima continua a haver uma grande quantidade de águas residuais sem tratamento”, refere."
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